Essa é uma das conclusões do livro São Paulo: segregação, pobreza e desigualdades sociais, organizado por Eduardo Marques e Haroldo Torres. Para verificar o que isso significa na prática, a equipe da revista diverCIDADE escolheu duas favelas para fazer uma comparação: a de Vila Mariana, na zona sul de São Paulo, e a do Perus, no extremo norte da cidade.
Morar perto X Morar longe
Localizada num espaço que foi uma fábrica de velas falida e abandonada na rua Mario Cardim, a favela da Vila Mariana já está na região há 30 anos, segundo a subprefeitura do bairro. Alguns moradores entrevistados mudaram de regiões com melhor infra-estrutura urbana para a favela, por conta da boa localização. Esse é o caso do motoboy Diego Rocha do Nascimento, que mora lá há cinco anos: “Vim de Francisco Morato com a família para achar mais serviço, porque aqui é próximo de tudo”.
Já o comerciante Aron Rocha, cearense de 38 anos, fez o caminho contrário: comprou uma casa no Jardim Miriam e saiu da favela. Ele concorda com Diogo, mas ressalta que apesar da proximidade os moradores ainda são muito carentes e desassistidos: “Ninguém vem aqui na favela montar escola, áreas de lazer. A brincadeira da criançada é ser levada pela polícia a cada instante”. De fato, pouco depois de entrarmos na favela, um comboio de policiais entrou no local de moto e retirou um jovem.
O morador também critica o acesso a serviços: “Em Perus falta tudo, de segurança a posto de saúde. Tem dia que não cabe ninguém no pronto-socorro, é gente jogada para tudo que é canto. Outro dia chamei a ambulância no 103, porque meu pai passou mal, e a ambulância não veio. Isso daqui é o caos”.
O Recanto dos Humildes é um misto de lotes urbanizados e favela, próximo ao km 26 da Rodovia dos Bandeirantes. Sua história teve início com uma iniciativa governamental. Segundo o geógrafo Gustavo de Oliveira Coelho de Souza, a área foi comprada no governo de Luiza Erundina para atender a demanda de moradia do movimento dos Sem Terra e moradores de favelas em situação de risco, mas por ser um local de topografia irregular, passou por diversas dificuldades para sua urbanização. Com a transição do governo petista para a gestão Maluf, a população ficou sem assessoria e passou a ocupar sem critério a região.
Embora os moradores de ambas as favelas sejam bastante carentes, na favela da Vila Mariana parece haver maior oferta de benefícios materiais. A mineira Maria das Graças dos Santos, de 52 anos, atualmente desempregada, está na favela há 20 anos e informa que lá existem a Associação Mãos Unidas, a Igreja Pia Sociedade de São Paulo, uma Igreja Batista e um centro espírita. As instituições têm contribuído com cestas básicas, remédios, aulas de reforço da escola, cursos variados para crianças, adolescentes e adultos.
As duas entradas da favela na rua Mario Cardim, Vila Mariana.
Vista de favela no Recanto dos Humildes, Perus.